Nossa jornada PHenomenal no Brasil – Mandy Gabarda

Esperança é desejar algo que pode acontecer, é acreditar que algo pode acontecer, Coragem é fazer algo acontecer”.

 

A vida começa no fim da sua zona de conforto. Isso parece clichê, mas é algo que aprendi que é tão verdadeiro que acaba me assustando às vezes. Um ano atrás, comecei uma jornada que mudou as minha vida para sempre. Tudo começou quando disse SIM ao convite de participar de uma ultramaratona no Brasil pela Hipertensão Pulmonar (HP).

Ser corajoso é dar o primeiro passo, mesmo que você não saiba como será o caminho à frente – e isso que fiz. Descrevo aqui toda a minha trajetória durante este ano incrível, buscando honrar, lutar e erguer aqueles que possuem Hipertensão Pulmonar.

Maresias-Bertioga é uma prova de corrida de 75km, que percorre as praias do litoral norte de São Paulo. O Team PHenomenal Hope Brasil convidou 3 atletas dos Estados Unidos para se juntar a eles no objetivo de coletar assinaturas para uma petição, que busca pressionar o Governo Federal a revisar o Protocolo Nacional de Hipertensão Pulmonar, aumentando o número de terapias disponíveis e permitindo a combinação de medicamentos. O trabalho que o Team PHenomenal Hope Brasil tem feito é fundamental para o futuro dos pacientes com Hipertensão Pulmonar e, claro, para aqueles que ainda serão diagnosticados no país.

No começo, eu fiquei muito nervosa, pois nunca havia sonhado em correr uma ultramaratona e, honestamente, não tinha certeza se seria capaz de fazê-lo em outras circunstâncias. No fundo, eu sabia que, sendo levada por uma causa tão incrível, eu teria energia sobrando e nada me deteria. Com esta fé no impossível, eu e mais 2 atletas dos EUA iniciamos o treinamento para a nossa primeira ultramaratona.

Desde quando começamos a treinar até o mês de outubro, nós passamos por poucas e boas. Eu tive uma fratura por stress no verão, Mike ficou bem doente e não pode ir a vários treinos e o Christian machucou o joelho em uma trilha e ficou com sequelas até a corrida. Mas, àquela altura, nada poderia nos deter. Nós estávamos determinado a cumprir a missão e honrar os pacientes. Cada vez que, durante um treino, eu tinha vontade de parar,  pensava nos pacientes que se levantam todos os dias para lutar por suas vidas, sem a opção de desistir. Eu me sinto abençoada por ter saúde e condição de usar o esporte como voz para promover conscientização da doença, inspirar outras pessoas and seguir adiante com paixão.

Amanda Budzowski Gabarda:

“Juntar a equipe dos EUA com a do Brasil mostra que o mundo está unido na nossa corrida pela cura e acesso ao tratamento universal. Isto é muito mais do que correr. É salvar vidas.

Christian Gabarda:

“Esta corrida demonstra a força da comunidade HP, e juntos, Team Brasil e Team EUA, nós podemos suportar qualquer esforço para salvar vidas. Estou muito animado para correr pela comunidade HP”.

Michael Bauer:

“Entrei para o Team PHenomenal Hope porque, como pesquisador em Hipertensão Pulmonar, percebi a necessidade que há em promover conscientização sobre esta devastadora doença. Esta causa se tornou ainda mais pessoal quando meu tio Michael foi diagnosticado com HP. Há pouco tempo, meu tio perdeu a batalha. Correrei a Bertioga-Maresias em sua memória e daqueles que foram cedo demais devido à HP. Espero que o nosso esforço contribua para avanços no tratamento no futuro”.

Paula Menezes:

“Correr 75km pelos pacientes com o TPH USA é a sensação mais recompensadora que posso experimentar. É transformar a dor em esperança para aqueles que ainda lutam contra a HP”.

Nós tínhamos um exército em Maresias – mais de 50 pessoas no total. Tenho profundo respeito pelo trabalho que a Paula realizou para alcançarmos a nossa meta e pela quantidade de pessoas que ela envolveu nesse processo. Ela é a verdadeira definição de uma líder e lutadora apaixonada. Você pode sentir a energia dela assim que  entra em um ambiente, e ela tem um jeito próprio de envolver todos ao redor e prepará-los para o que for- isso é muito admirável. Ela passou por muitas dificuldades na batalha que sua mãe enfrentou contra a HP, e tirou disso forças para continuar lutando pelos que ficaram. O exército dela incluía:

4 atletas do Team PHenomenal Hope Brasi;

3 atletas do Team PHenomenal Hope USA;

1 sexteto formado por amigos e parentes de pacientes: Flávia, Adriana, Guilherme, Evander, Gabriela e Gilmara;

12 pessoas apoiando os atletas solo durante a corrida;

3 atletas solo simpatizantes à causa: Laura, Fabíola e Piero;

1 ônibus e 1 van com pacientes e amigos para torcer por nós.

Para nos preparar com força extra, eu, Mike e Christian fizemos umas fitinhas com todos os nomes dos pacientes que doamos o nosso fôlego, e amarramos na mochila para carregar durante toda a corrida. Na manhã da corrida postei uma foto das 2 equipes usando o uniforme americano no Instagram com a frase “Tudo bem sentir medo. Significa que você está presentes a realizar algo incrível”, e usei isso como um mantra. A verdade é que eu estava muito assustada e não havia como voltar atrás.

O dia da prova voou. Na verdade, todos os grandes dias da minha vida passaram voando em segundos. Eu sabia que isso ia acontecer, assim como no dia do meu casamento, no Ironman etc. Nós chegamos na linha de chegada com uma chuva fina às 4:30 da manhã. A cada segundo que passava, meu coração acelerava e pulava pela minha boca. Quando foi dada a largada, eu caí no choro e iniciei minha jornada.

Os primeiros 3km foram inteiros de subida. Para você entender, foram 30 minutos de subida sem parar, em uma estrada com neblina e muitas curvas. Quando pensava que havia acabado, lá vinha mais subida. Na sequência, a estrada ficou plana e logo veio a descida. Eu nem esperava e logo chegou o primeiro PC (posto de controle), onde a minha incrível equipe de suporte, Cibelle e Natália, estava esperando por mim. Na corrida não há nenhum tipo de apoio ou suplementação, e cada atleta solo deve ter a sua própria equipe que irá dar suporte a cada 10km aproximadamente. A minha equipe foi extremamente fundamental para que eu pudesse ter sucesso na prova.

Os próximos 30km se revezavam entre estrada e praia. Ora corríamos na praia, ora na estrada subindo montanhas. Eu sempre focava em chegar ao próximo PC, pois eu sabia que a minha equipe estaria lá sorrindo com meias secas e comida. A chuva tornou tudo mais difícil, porque durante toda a prova fiquei ensopada e tive muitas bolhas nos pés. Próximo de completar uma maratona, recebi uma carga extra de energia quando vi um grupo de pacientes com uma faixa escrito “Obrigado”. Eu gritei o mais alto que pude agradecendo-os de volta. Lembro de, naquele momento, pensar: “Eis a razão de tudo”, e chorei novamente enquanto corria.

 

 

Eu comecei a ficar bem nervosa quando completei uma maratona, pois era a maior quilometragem que eu havia feito em um treino, e, a partir dali, o terreno começou a dificultar muito. Havia muita lama e água que molhava até o meu quadril. Cada vez que eu saía de uma trilha, eu corria para o mar para me limpar e tentar manter o meu pé sem tanta lama.

No km 50 eu comecei a dedicar cada km aos pacientes que carregava nas minhas fitinhas. Lembrei deles durante toda a prova, mas, naquele momento, precisava me focar ainda mais para tirar a energia extra que precisava, pois a corrida ficava mais difícil a cada metro. Eu não parava de pensar que todos os dias os pacientes se sentem como em uma maratona, e não podem parar. Sua única opção é continuar lutando pela vida. Então falei para mim mesma que, a cada 2km, eu “tinha permissão” para caminhar 1 minuto. Hoje vejo que essa estratégia me ajudou muito.

De repente, cheguei ao meu último PC, e a Natália e a Cibelle me contaram que eu conseguiria terminar em menos de 10 horas a prova, e que havia pacientes e atletas me esperando na linha de chegada. Isso me motivou tanto que uma descarga de adrenalina tomou o meu corpo e voltei a correr. A partir daí, foquei 100% em encontrar os pacientes, abraçá-los e ser envolvida com o amor e apoio deles.

Finalmente consegui ver o meu marido Christian e ele me disse que estava perto e que era para eu “correr para casa”. Não sei de onde tirei tanta força, mas parecia que estava voando. Eu voava para chegar nos pacientes, nos atletas e na linha chegada. Eu sentia a vibração deles a cada passo que chegava mais perto.

Honestamente, não lembro de cruzar a linha de chegada. É como se fosse um borrão aquele momento. Mas o que acontece na hora seguinte mudou a minha vida de diversas maneiras.

 

Assim que terminei a prova, fui cumprimentada por vários pacientes que haviam viajado 10 horas para nos ver. Foi incrível a sensação, já que, mesmo com a barreira da língua, “obrigada” e um abraço são suficientes para demonstrar o que estamos sentimos. A cada novo atleta que chegava, a nossa emoção aumentava, e assim esperamos a Paula chegar.

1 hora depois, Paula chegou ao som de uma multidão de pacientes gritando o seu nome. Eles esperaram o dia todo e a receberam com os braços abertos e os maiores abraços que eu já vi. Havia lágrimas, sorrisos e abraços em todos os lugares. Foi um dos momentos mais incríveis que vivi até hoje. Tudo isso me permitiu ver como o que fazemos impacta na vida do paciente. Foi surreal vivenciar aquilo tudo e só de lembrar me faz chorar novamente.

Palavras me faltam para descrever a jornada que percorremos no último ano. É triste perceber que a nossa missão chegou ao fim, mas o nosso elo com o Team PH Brasil ficou atado e já estamos planejando a nossa próxima visita. Mas, mais do que isso, espero que todo o nosso trabalho inspire pacientes e novos atletas. Espero que possamos passar força para eles continuarem lutando não apenas pelas suas vidas, mas pelos seus sonhos.

Corredores, ultramaratonistas, Ironman não são super-heróis. Qualquer pessoa que se proponha a realizá-lo vai conseguir. Quero deixar esta mensagem a todos que leem este texto: VOCÊ PODE ALCANÇAR QUALQUER META QUE DEFINIR. É por isso que criamos o Team PHenomenal Hope: unir pessoas com diversas habilidades (não importa qual) para inspirar e mudar o panorama da HP. Fazer parte do Team me transformou, e tenho certeza que transformou a vida de todos que tocamos até agora.